sábado, 25 de fevereiro de 2012

SOBRE A COISIFICAÇÃO.




Há um problema sério de vagas para veículos em Brasília, seja em que parte for. Isso é inquestionável. Nosso projetista, Lúcio Costa, deve se contorcer em seu túmulo, ao perceber o caos que é o estacionamento na Capital Federal hoje. Não creio que tenha sido isso que ele idealizou há um pouco mais de 52 anos. Seja na Esplanada dos Ministérios, nos Setores de Diversões ou nos Comércios Locais o problema é sempre o mesmo: não há vagas.
É fato que o transporte público não ajuda muito. Quem depende dele sonha com o carro próprio e economiza para adquiri-lo; e é bem verdade que as políticas para aquisição de automóveis fizeram crescer consideravelmente o número de veículos nas ruas. As vagas, então, tornaram-se insuficientes.
Assim, o problema persiste, pois o número de carros é imenso e a malha asfáltica, ao contrário, não. Também pudera. Nossa cidade foi planejada para um número inicial de 600.000 mil habitantes e, hoje, ultrapassamos a marca de 900.000 mil motorizados nas ruas de Brasília. Em conseqüência disso, portanto, o número de vagas nos estacionamentos públicos é bastante deficitário.
Mas, deixando dados estatísticos de lado e humanizando mais esta história, quero dizer com tudo isso que a vida é muito mais importante que uma vaga no estacionamento.
Isso não é surpresa para você? Você acha que as pessoas sabem disso?
Bem, elas até sabem, mas, no dia a dia, acabam se esquecendo e tornam-se como os próprios carros: seres insensíveis, que não têm emoções ou sentimentos.
Minha mãe já dizia que quando uma pessoa entra num carro deixa de ser gente e vira o próprio carro. É a Coisificação. A maior prova disso é que quando você se aborrece com alguém no trânsito, se esquece que se trata de uma pessoa ao volante do outro carro – “adversário” ao seu, e passa a enxergar o outro como um veículo apenas. Então, você xinga, arremete o carro contra o dele, ultrapassa perigosamente e sai achando que ganhou numa briga.
Diante disso, podemos dizer que nós, seres humanos, de fato, somos completamente sugestionáveis.
Em se tratando de vagas, o princípio da Coisificação, aplica-se igualmente. Quem nunca passou raiva por esperar horrores até uma vaga aparecer e, na hora de manobrar, um engraçadinho entrar na frente e pegar o lugar? Dá vontade de subir em cima do carro do outro e pular até a lataria ficar toda amassada. Mas geralmente a gente bate boca mesmo, faz sinais com as mãos e, é claro que perde a paz facilmente.
Que vergonha! No auge da busca pela qualidade de vida, das mais altas tecnologias de comunicação, da exaltação do politicamente correto, agimos dessa maneira patética. Somos mesmo sugestionáveis. As situações nos sugestionam e nós caímos como patinhos em suas armadilhas.
A vida, então, perde o seu valor, e uma vaga no estacionamento ganha dimensões gigantescas. Há aqueles que brigam por uma vaga; aqueles que não saem dela, para não correrem o risco de perdê-la; aqueles que param em fila dupla, com preguiça de procurar uma disponível. Em todas essas situações, a vida é jogada à escanteio. Lá se vai embora a qualidade de vida.
Soube uma vez de uma pessoa que deixava de almoçar com a família durante toda a semana, porque era apegada demais a sua vaga; a sua vaga era de estimação. Sei também de pessoas que são capazes de estacionar em fila dupla, mesmo quando há vagas – só que mais distantes, porque estão com preguiça de andar um pouco mais até o seu destino.
Todos esses exemplos apenas demonstram como a vida perde o seu valor diante dessas situações aparentemente tão banais. Passamos a considerar o outro como coisa, coisa menos importante, é claro e, nos esquecemos que somos todos semelhantes e carentes das mesmas necessidades.
É óbvio que existe um problema de tráfego, mas a Coisificação não é o caminho para a sua solução. Seres humanos são sensíveis, conscientes, racionais, capazes de compreender que têm necessidades. Todos precisamos estacionar. Precisamos nos locomover. Precisamos aprender a viver em paz uns com os outros. E precisamos também aprender a viver. Uma vaga, sem dúvida, não é mais que um almoço em família, do que uma caminhada maior, para não atrapalhar a saída de outros motoristas, do que a paz que se tem quando se dá preferência a alguém.
Deixemos de ser tão sugestionáveis, portanto, e passemos a valorizar a vida, pela beleza e importância que ela naturalmente tem. Deixemos de considerar o outro menos importante, a ponto de coisifica-lo, a ponto de visualizar somente o carro e não a pessoa que o dirige.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

A CIDADELA - A. J. CRONIN


Eis aqui um livro digno de ser lido, se você quer saber a minha opinião. Gostaria de transcrever aqui um pequeno trecho deste livro, que me despertou um sorriso. Não há como não se encantar com a bela narrativa de Cronin. É mesmo de emocionar!


A reconciliação foi uma coisa maravilhosa, a maior maravilha que aconteceu na vida de Andrew e Christine desde os primeiros dias do seu amor. Na manhã seguinte, que era domingo, ficou deitado junto dela, como naqueles dias de Aberalaw, falando, falando, e, como antigamente, abrindo o coração para a mulher. Pairava lá fora a quietude do domingo. A música dos sinos era como uma sugestão de paz e tranquilidade. Mas Andrew não estava tranquilo.
– Como cheguei a fazer isso? – resmungava, aflito. – Eu estava doido, Chris? Nem posso acreditar no que fiz, quando penso nessas coisas. Eu metido com essa gente, depois de conhecer Denny e Hope! Meu Deus! Mereço um grande castigo!
Ela procurava consolá-lo: – Tudo aconteceu tão de repente, querido!... Era mesmo para uma pessoa perder a cabeça.
– Falando sério, Chris! Sinto que enlouqueço quando penso nessas coisas. E como você deve ter sofrido todo esse tempo! Deus do céu! Deve ter sido um verdadeiro martírio.
Christine sorria; aprendera a sorrir novamente. Como era tocante, maravilhoso  mesmo, ver o rosto dela perder o ar de desânimo e indiferença gelada, para mostrar-se meigo outra vez, feliz, cheio de carinho para ele. “Graças a Deus”, pensava Andrew intimamente, “estamos vivendo de novo”.
De repente, enrugando a testa: – Só nos resta uma coisa a fazer. – Apesar da vibração nervosa, sentia-se forte agora, livre de um nevoeiro de ilusão, pronto para agir. – Temos de sair daqui. Eu afundei demais, Chris, demais! Se ficasse aqui, eu me lembraria a cada momento da turma de charlatães com que me meti... E quem sabe se não voltaria a ser o que fui? Podemos vender a clínica faciolmente. E sabe, Chris? Tenho uma ideia estupenda!
– Tem mesmo, querido?
Alisou-se a ruga nervosa da testa e Andrew sorriu para ela timidamente, carinhosamente.
– Há quanto tempo que você não me chamava de querido! Isso me agrada. Sim, eu sei. A culpa foi minha... Mas não me deixe, Chris, voltar a discutir essas coisas! A minha ideia... Sabe como me veio esse plano? Veio-me à cabeça quando acordei hoje. [...]
Sua única resposta foi olhar para um lado e para outro e, com grande risco de provocar escândalo na rua movomentada, dar-lhe um beijo estalado.

A CIDADELA – A.J. CRONIN 7a Ed. (p. 371 e 377)

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

SETEMBRO, NÃO TE CULPES.




Ó, Setembro, não te culpes por eu estar assim
Não é tua a minha falta que cometi aqui
Peço, te compadeças e leves seus dias de mim
Sejas rápido e bondoso, para que chegue Outubro, enfim.

Ó, Setembro, não te culpes por tua data lembrar
O que antes era alegria e hoje me faz chorar
Leva embora a tristeza, para que no ano que vem
Em Setembro eu comemore o melhor que a vida tem.

Ó, Setembro, não te culpes por assim eu desejar
Os teus dias representam verdadeiro renovar
A esperança que me nutrem me faz flutuar
Em sonhos de uma vida em que já não podia acreditar.

Ó, Setembro, meu amigo, não demores a passar
Deixa somente a alegria deste belo começar
E, para encher meus olhos, deixa os ipês
De sua estação florida; flores lindas de se ver.

Ó, Setembro, torna doce o que a vida amargou
Leva embora a lembrança do pesadelo que passou
Teu consolo para mim eu estou a aguardar
Ó, Setembro, meu querido, novo amor hás de me dar.

(Ana Maria Machado)

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

MEU ATESTADO DE APTIDÃO MENTAL - Parte 3 (Final)

Eis aqui o fim da história verídica sobre o meu atestado de aptidão mental. Se você ainda não leu o início da história, não comece por esta publicação. Volte até a parte 1, para acompanhar tudo na ordem certinha!

MEU ATESTADO DE APTIDÃO MENTAL - Parte 3 (Final)



Havia um homem, que me chamou a atenção, aguardando o atendimento do Doutor. Seus cabelos, necessitados de um corte, brancos e desgrenhados, posicionados em direção ao céu, como se ele tivesse levado um choque de alta voltagem, atraiam o olhar de quem passasse no corredor lá fora do consultório. Era um senhor de meia idade, um pouco calvo, gordo, moreno, com os olhos esbugalhados. Os olhos eram realmente esbugalhados, porque não me lembro de ter visto em toda a minha vida olhos tão jogados para fora do rosto como aqueles. Era de dar medo. Não queria que ele olhasse para mim.
Aquele senhor assustador esperava calmamente havia horas pelo seu atendimento, até que o paciente que saiu do consultório lhe chamou o nome, a pedido do Médico, a fim de que entrasse para a consulta. Havia chegado finalmente a sua vez. Levantou-se e entrou na sala, fechando a porta após si.
Nesse momento, o ajudante de Dona Joana me pediu que respondesse um questionário, escrevendo informações a meu respeito em um papel branco, do tipo ofício, que ele mesmo dobrara ao meio e me dera. Eu devia escrever ali meus dados pessoais, o nome do órgão para o qual eu iria entregar o atestado – caso fosse considerada apta – e mais alguma coisa que já não lembro mais.
Depois de preencher o questionário, olhei despropositadamente em direção à porta do consultório, como se com o meu olhar eu pudesse fazê-la se abrir e o Doutor me chamar para o atendimento. Mal me dei conta de que saía de lá, feliz da vida, o senhor assustador, com uma receita na mão. O atendimento havia sido recorde! Em apenas cinco minutos o problema dele – aparentemente – tinha sido resolvido.
Achei aquilo um tanto quanto estranho. Não me parecia um caso tão fácil de se resolver. Talvez tenha ficado muito impressionada com a figura do senhor assustador e pensara que iria demorar demais o atendimento dele. Bem, o que importava agora era que havia menos uma pessoa a minha frente naquela fila de espera.
Devolvi o papel ofício devidamente preenchido com as informações ao jovem ajudante, já impaciente com a demora daquilo tudo. Quando por pouco me dava por vencida, a ponto de desistir daquela consulta, ouvi falar meu nome. Um sujeito que terminara seu atendimento, saindo da sala, indicando com a cabeça em direção ao consultório onde o médico estava, chamava o próximo paciente. Finalmente chegara a minha vez!
O ajudante de Dona Joana antecipou-se e entrou no consultório antes de mim, entregando ao Doutor o papel que eu preenchera, cochichando com o médico algo que não pude entender. Após a troca breve de segredinhos, fez um sinal com a cabeça, em sentido afirmativo, saindo da sala e fechando a porta, enquanto o Dr. Psiquiatra analisava descontraidamente as minhas informações no papel.
Sentada à frente do médico, olhando a sua expressão, eu esperava perguntas capciosas e exibição de figuras psicodélicas nas quais eu deveria encontrar algum sentido. Porém, me enganara. Ao levantar a cabeça, passando a mirar do papel o meu rosto, o médico confirmava uma por uma as informações que eu havia apresentado no questionário. Calmamente, verificando os meus dados, finalizou a análise, sem delongas, afirmando ser desnecessário qualquer procedimento mais aprofundado.
Discursou por poucos minutos justificando como seria inútil prolongar aquela consulta, dizendo que para o propósito de comprovação de aptidão mental para fins de investidura em Concurso, bastava ter passado nas provas, como era o meu caso.
Digitando rapidamente o meu nome em um modelo já preparado para a emissão de atestados na enorme tela de seu computador, fazendo um barulho danado com o bater do seu teclado, e encerrando a explicação sobre a exigência desnecessária do atestado, imprimindo uma folha, carimbou, assinou e me deu na mão, confirmando: “Como a senhorita veio aqui somente para ter um atestado, não vejo motivos para uma consulta tão demorada.”.
Saía, então, eu daquele consultório. Ouvi três obrigadas após mim, ditos por Dona Joana, que sequer percebia quem se retirava, sem levantar a cabeça dos papeis que verificava sem muita atenção. Admirei pela última vez os retratos pendurados na parede, e caminhei em direção à porta de saída, pensando que gastara toda a tarde ali. Não fazia mal. Eu possuía, enfim, o meu atestado de aptidão mental.

segunda-feira, 30 de janeiro de 2012

MEU ATESTADO DE APTIDÃO MENTAL - Parte 2

Olá, meus amigos concursandos, a quem eu dedico esta série de publicações! Aqui está a segunda parte de uma história verídica sobre o meu atestado de aptidão mental. Se você ainda não leu a primeira parte, peço que volte uma publicação atrás para conferir tudo tim tim por tim tim.


MEU ATESTADO DE APTIDÃO MENTAL - Parte 2





A secretária, Dona Joana, uma mulher de meia idade, e de boa aparência, era responsável pelo atendimento pessoal, recebendo o pagamento dos pacientes e repassando o troco àqueles que pagassem em dinheiro. O ajudante era um rapaz, bem jovem, vestido de jeans, camiseta e boné, atendia aos telefones e preparava as notas fiscais. Ele também ajudava quando era necessária alguma força física para levantar algo pesado, ou quando Dona Joana – não raro – confundia alguma coisa e não sabia resolver sozinha (havia valores distintos para uma consulta comum e para uma consulta cujo objeto fosse “apenas” o atestado de aptidão mental).
Ao receber uma nota de R$ 100,00 reais das mãos de uma pessoa que chegara antes de mim, Dona Joana se concentrou para calcular o troco correto, pegar as notas na gaveta e entregá-las ao paciente. A fim de confirmar o troco, perguntou:
“É trinta, trinta, trinta reais, né, né, né?”
A pessoa, timidamente, respondeu que sim, estendendo a mão para apanhar o dinheiro. Dona Joana interpelou, repetindo incisivamente:
“É trinta, trinta, trinta reais, né, né, né?”
Então o rapaz, seu fiel ajudante, achou por bem intervir, confirmando derradeiramente o troco.
“Sim, Dona Joana, é trinta reais.”.
Fiquei sem entender a dificuldade em calcular o troco, mas continuei observando o que acontecia na sala atentamente. De repente, percebi que era a minha vez de ser atendida. Levantei-me e me dirigi à mesa de Dona Joana. Antes que pudesse falar qualquer coisa, me perguntou a secretária:
“Você é paciente, paciente, paciente?”
“Sim.” Eu respondi. “Eu vim para realizar um teste de aptidão mental.”.
Àquela altura do atendimento, percebi que eu devia ser mesmo paciente com Dona Joana, pois ela certamente repetiria, no mínimo três vezes, qualquer coisa que fosse me dizer.
Entreguei, então, o cheque a ela, agradecendo a Deus por não ter feito o pagamento em dinheiro. Caso houvesse a necessidade de troco, eu ouviria constrangedoramente o valor do troco umas sem vezes até que a secretária tivesse completa certeza de que a quantia estava correta.
“Obrigada.”
“De nada, nada, nada.”
Voltei assustada com aquilo e me sentei, observando meticulosamente as paredes, verificando a existência de câmeras. Não parava de pensar que o meu exame começara desde a hora em que eu havia chegado ao consultório. Imaginava que o Doutor Psiquiatra devia, de algum canto daquele recinto, estar analisando minhas reações diante daquelas situações, na finalidade de emitir o atestado pelo qual eu me encontrava lá.
Mas, para meu espanto, não havia câmeras. Aquilo ali era a vida real.
Todo mundo na sala assistia o atendimento de Dona Joana, com muita normalidade. Todos os atendimentos da secretária, sem exceção, eram marcados por exaustivas repetições. Ao longo do tempo, a situação ia ficando engraçada, e eu não conseguia me conter. Hora ou outra escapulia uma risada. Aquilo, de fato, era a vida real, real, real – de Dona Joana.
O tempo ia passando e nada do Doutor me chamar. Lembro-me que fiquei a tarde inteira no consultório e, creio que, por isso também, o episódio marcou minha vida tão profundamente. Esqueci de levar um livro ou alguma coisa para passar o tempo; minha distração era a própria situação.

[Continua...]

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

MEU ATESTADO DE APTIDÃO MENTAL - Parte 1


Meus amigos, aqui trato de postar uma experiência minha. Uma cômica história que Deus me deu a viver. Eu a dividi em várias partes, então, peço que esperem as próximas postagens para que possam saber o seu fim. Esta história dedico a vocês que são concurseiros, concursados e que estão o tempo todo dispostos a lutar e vencer. Chama-se:

MEU ATESTADO DE APTIDÃO MENTAL


Uma das minhas grandes alegrias nos últimos anos foi ter passado em alguns concursos públicos. É que o esforço que se envida é alto, e a vida que se investe é preciosa. Por isso, quando se passa em um certame desses, quando se é nomeado, quando se é investido em um cargo público, o contentamento é imenso.
Considerando a realidade de concorrência selvagem em Brasília, devido ao número de candidatos bem qualificados, a alegria de passar num concurso se torna mais significativa ainda. De fato, passar em um concurso não está fácil.
Todo mundo sabe, entretanto, que não basta, para muitos cargos, que haja a aprovação em prova examinadora; é necessário o exame psicológico, para se averiguar se o perfil psicológico do candidato aprovado é compatível com as exigências, quanto à competência, do cargo em questão.
Para minha sorte, um dos concursos em que passei exigia o laudo do médico psiquiatra, atestando a aptidão mental para o exercício do cargo. Digo sorte, pela experiência inesquecível que se tornou para mim a realização desse exame psicológico e, também por eu ter, agora, certeza de que realmente sou normal, é claro.
O meu plano de saúde da época não cobria a realização de um exame como esse. Tive de pesquisar bastante até encontrar um, com indicação, cujo valor me fosse acessível. Em um fórum virtual, no sítio do correioweb, vários candidatos também aprovados recomendaram certo médico psiquiatra, que atendia em um consultório no Conjunto Nacional, por apenas R$ 70,00. Não havia escolha, nem tempo. Ia ser este mesmo.
Liguei antes para agendar a consulta, mas a pessoa do outro lado do telefone disse que o atendimento era feito por ordem de chegada. Então, naquela tarde, tratei de chegar bem cedo ao consultório, para ser atendida logo, mas me enganei ao achar que isso seria eficaz. O consultório já estava completamente cheio quando cheguei.
Havia pessoas em pé, sentadas pelos bancos e cadeiras espalhadas na recepção improvisada. Enquanto eu esperava para falar com a secretária, sentei-me num dos últimos lugares vagos, em um banco de madeira de três lugares – para não ter de ficar em pé, caso alguém mais chegasse, já que, pelo visto, a minha tarde seria longa – compartilhando o espaço com uma futura colega de trabalho. Além de nós duas, havia pacientes costumeiros do Doutor Psiquiatra, candidatos aprovados em outros concursos e alguns acompanhantes.
O lugar era, na verdade, a junção de duas salas comerciais, transformadas em um consultório, cujo espaço dividia-se em um quarto reservado, onde o médico fazia o atendimento, fechado por uma porta de madeira; a recepção, onde havia as cadeiras e bancos para espera; o banheiro e o lugar onde ficava a secretária e o seu ajudante. A decoração do consultório consistia em paredes repletas de fotos do Doutor com pessoas desconhecidas, e algumas reportagens em que ele aparecera, emolduradas especialmente para aquele propósito.
Antes que eu pudesse notar qualquer coisa demasiadamente estranha naquele consultório, observei um jovem senhor saindo do banheiro, dirigindo-se a pia, que se localizava próxima ao lugar onde eu estava. Ao abrir a torneira, desenroscou, desenroscou, na tentativa de lavar as mãos, porém a água não saía. Queixou-se ao rapaz que ajudava no atendimento, que se antecipou e perguntou friamente ao senhor, em um tom de voz bem audível a toda a sala:
“O senhor deu descarga ao usar o banheiro?”
Ao ouvir aquela pergunta, pensei comigo mesma na grosseria do ajudante, imaginando o constrangimento que ele fizera o jovem senhor passar na frente de todos, mas fui imediatamente interrompida no meu pensamento, quando, justificando a pergunta, o rapaz disse o seguinte:
“É que se o senhor dá descarga, a água da caixa d’água acaba e não tem mais para lavar a mão.”
Não contive minha risada. Que pobreza, meu Deus do Céu! Não havia água suficiente para que uma pessoa usasse o banheiro e lavasse as mãos. E também não havia qualquer discrição do ajudante da secretária ao dar uma resposta daquela.
Comecei a perceber somente então onde havia me metido.
[Continua...]

sábado, 7 de janeiro de 2012

Como tudo começou...

Minha história começa exatamente onde e como começou outra história: a história de Adão e Eva. Minha história se mistura com a dos dois, como se fosse uma versão particular dos mesmos eventos que lhes acometeram. Uma espécie de repetição, embora eu me esforce muito para mudar as coisas e fazer tudo diferente. Uma repetição de atitudes que estão ligadas a sua natureza. Esta natureza não se refere somente à herança genética; é uma herança de família, uma herança espiritual. É como se estivesse impregnada na minha carne e alma a vontade, o desejo de agir da mesma forma como eles agiram há tanto tempo.
Felizes eram Adão e Eva por estarem ali, no Éden, aquele lugar lindo, e tão perto da presença de Deus. Desfrutavam do frescor suave do orvalho toda manhã, sentiam o calor do sol durante o dia, queimando levemente suas faces, cuidavam das plantas e animais como se fossem seus bichos de estimação, aproveitavam a amizade de Deus todas as tardes, dando gargalhadas das coisas engraçadas que conversavam nos seus encontros. Não havia nada melhor do que encerrar um dia no jardim conversando com o Criador, provando as frutas mais gostosas, fazendo um lanche no finalzinho da tarde e contando tudo o que acontecera durante o dia, como se Ele não soubesse de antemão. Mesmo assim, Deus ouvia com atenção, fazendo perguntas e esperando as respostas, como um amigo que deseja se aproximar mais e descobrir os segredos íntimos do coração. Depois de tudo, um abraço gostoso de despedida, antevendo o próximo encontro, como se um único abraço pudesse contar quantas mil coisas maravilhosas aconteceriam no dia seguinte.
Entretanto, a beleza, a companhia, a natureza não pareciam suficientes a Adão e Eva. Havia algo na árvore, no meio do jardim, que lhes atraía para perto de uma grande cilada, e, a cada dia mais os afastava da amizade de Deus, sem que se dessem conta.
Eva ardia de desejo por experimentar algo que era proibido, algo de que certamente não precisaria nunca, pois ela e Adão estariam sempre ali, debaixo do olhar cuidadoso de seu Criador. Mas ela não conseguia disfarçar a sua inquietude ao olhar para a árvore e desejar seus frutos. Seus olhos se fixavam neles atentamente ao passar próximo à planta, e suas narinas dilatavam-se procurando a fragrância proibida exalada dos frutos. Porém, muito mais do que o sabor e o cheiro do fruto, o conhecimento do bem e do mal apetecia a Eva, a ponto de sentir-se envolvida e cativada pela árvore, a ponto de lhe dar água na boca.
Adão também não podia esconder sua vontade de conhecer as coisas ocultas, as coisas para as quais ele não fora criado, mas pelas quais estaria disposto, num momento de fraqueza, a arriscar a amizade da pessoa que mais o amava: Deus. Tentava disfarçar, pois se sentia no dever de manter-se firme e proteger Eva de qualquer mal que a árvore pudesse representar, caso houvesse algum incidente, mas não conseguia evitar que seus olhos constantemente repousassem ansiosos nos frutos graciosos dela. Seduzido pela árvore, não havia outra sombra, senão a dela, que pudesse oferecer lugar mais aconchegante para estar. Ali, Adão, desejava conhecer algumas informações, as coisas que Deus sabia, mas ele, não.
De alguma forma, a árvore exercia sobre Adão e Eva uma força que os trazia para si, lhes induzindo o pensamento, tentando lhes convencer de quão bom seria conhecer o bem e o mal. Era isso que atraía o coração do jovem casal, era esse o conhecimento que lhes parecia faltar falsamente.
A serpente soube exatamente como atingir o que almejava. Ela usou seus ardis para atrair o casal e envolvê-los na tentação que a árvore já exercia sobre eles. A voz sedutora da cobra os embalava num movimento frenético até os frutos dos galhos mais baixos, fazendo-os titubear enquanto ponderavam as suas atitudes e consideravam vantajosa a sugestão do animal. Nas mentes de Adão e Eva, uma luta era travada entre os estímulos ocasionados pela serpente e o dever que sabiam ter de cumprir por obediência ao seu Criador. Quando se deram conta do que acontecera, o fruto em suas mãos já havia sido mordido e o sabor forte espalhava-se por suas bocas, amargando o gosto da fatal dentada.
A história de Adão e Eva foi planejada para ser linda. Uma história de um jardim, de uma natureza sem igual, de uma aventura, de um relacionamento pleno com Deus, de um amor intenso. Não se pode dizer que tudo o que fora arquitetado originariamente para se viver no Éden acabou-se por completo, mas, é fato, as coisas não são e, às vezes, não passam sequer perto do que realmente deveriam ser. Agora, que há o pecado, há dor, há separação de Deus: há morte. A história já não é tão linda como poderia ser, graças ao conhecimento do mal.
Mas, porque o conhecimento trouxe tanta desgraça? Desde sempre Adão e Eva sabiam que jamais deveriam provar do fruto da árvore proibida. Quebrar essa ordem já trazia sobre eles muita desgraça, pois ninguém na história da humanidade havia infringido mandamento algum. Eles foram os primeiros a passar pela porta do pecado e deixá-la aberta para os humanos de todas as épocas atravessarem amplamente, como se abrissem um caminho largo que leva à morte.
A primazia na fraqueza de desobedecer já se constituía rótulo de miséria enorme para os dois. Mas, além do peso desse título, a desobediência trouxe a suas mentes o conhecimento que até então era como se vendado aos olhos. O conhecimento que mudaria o rumo da história, que escureceria toda a luz e o brilho da vida no jardim. Toda a informação que o fruto da árvore poderia dar era desnecessária: tomar consciência da nudez, da maldade, do pecado era tão dispensável que Deus preferiu não conferir essa prerrogativa ao Homem. Mas o Homem quis obtê-la a qualquer custo. Alto custo.
A árvore proibida rendia frutos de conhecimento do bem e do mal. O maior bem que Adão e Eva poderiam viver, eles já viviam: viver no jardim, com a amizade de Deus. Eles podiam até não compreender a magnitude disso, mas eles estavam ali, não precisavam de mais nada, pois tudo estava ao seu alcance e havia a presença real de Deus. Porque desejariam eles o conhecimento de algo além daquilo que eles viviam ali? O que realmente procuravam se não lhes faltava nada? O que informações ocultas poderiam acrescentar às suas vidas?
O conhecimento, a informação só trouxe perdas. Grandes perdas. Não que Deus quisesse mantê-los na ignorância, pelo contrário, o Senhor desejou que Adão e Eva soubessem como viver ali no jardim, como cuidar da natureza, como se relacionarem com Ele. Isso era realmente relevante: o contato com Deus. O mal não era necessário, não era importante o suficiente para fazer parte dos planos do Senhor. Afinal, os Seus planos são sempre para o bem, seus pensamentos muito mais elevados do que se pode imaginar.
Jesus veio para recuperar os planos originais do Éden. Pois o Criador não havia empregado todo o seu esforço para fazer um universo inteiro em seis dias e perdê-lo em um único dia, por causa da desobediência do primeiro casal humano. Assim, Deus quis, mesmo diante da terrível demonstração de desobediência do Homem, trazê-lo novamente para si, religando a relação que foi quebrada quando Eva e Adão provaram do fruto da árvore proibida. Jesus foi o laço para que a relação fosse reatada. E esse processo de restauração custou alto valor para Deus, porque somente alguém tão grande quanto o próprio Criador poderia fazer algo para reparar a situação em que o casal se metera. Então, Jesus, o único filho do Pai, foi dado, como sacrifício, que pagou o pecado de Adão e Eva, e, ainda, os pecados de todo o mundo, de todos os tempos, de toda a história, para que o Homem pudesse desfrutar novamente das delícias do jardim, da história planejada desde o começo. O ato de dar o próprio filho, o ato de oferecer uma segunda chance é, sem dúvida, o gesto mais maravilhoso de amor que alguém poderia manifestar. A Deus, portanto, eu sou eternamente grata. O amor do Pai foi por mim, desde o princípio.